Frequentemente, usamos a imagem da bússola como uma metáfora para a moral, um instrumento que aponta para os valores que devem conduzir uma decisão ética. Contudo, podemos levar essa figura de linguagem a um lugar ainda mais profundo, para uma leitura existencial. Partindo do entendimento da existência como uma abertura para o mundo, a bússola torna-se aquilo que nos orienta em nosso movimento, que nos guia em nosso agir e que norteia nossos modos de ser.
Essa "bússola existencial" diz respeito à forma como navegamos a vida, como escolhemos, nos comportamos e sentimos. Seus pontos cardeais — nossos valores, medos e desejos — podem ser conhecidos e claros, mas muitas vezes são tácitos e implícitos, revelando-se apenas num gesto automático, numa reação inesperada ou num padrão de vida que se repete sem que saibamos o porquê.
Essa noção se aproxima da ideia de "projetos-de-mundo", do psiquiatra Ludwig Binswanger, que remete a uma totalidade organizada de um modo específico, visando uma direção e moldando nossa identidade.
A psicoterapia é, em grande medida, o espaço onde essa bússola interna é desvelada. As referências que nos guiam, mas que muitas vezes permanecem despercebidas e pouco refletidas, são trazidas à luz. Ao descobrirmos a direção para a qual estamos apontando, podemos enfim nos perguntar: por que seguimos este rumo? Qual o propósito desta bússola em nossa vida? Como estes pontos cardeais foram sendo construídos ao longo de uma vida?
É no espaço terapêutico que nos permitimos investigar a fundo essa orientação. Quais experiências, sensações, fantasias e fantasmas a constituem? De onde ela vem? E, a pergunta mais crucial de todas: para onde ela está, de fato, nos levando?